A consciência e o domínio do movimento na contemporaneidade


Qualquer corpo é mídia de si mesmo, contém uma coleção de informações, que permanecem em constante transformação, e a cada instante, dependendo das trocas, essa coleção muda. O corpo, portanto, não é, ele está sendo.


“O corpo contemporâneo é um lugar de transição, de atravessamentos,

de reordenações múltiplas e ramificadas.”

(MARQUES, 2010)[1]


“Na qualidade de fenômeno artístico, o corpo é, simultaneamente, objeto pelo qual o artista produz seu discurso simbólico, veículo sensível que traz à superfície inúmeras intenções e vozes ocultas, e sujeito que elabora poeticamente as informações e experiências vividas. Assim, transmuta palavras, sensações e intenções, em imagens que integram posturas, atitudes e gestos, fundindo a massa corporal com a fluidez da alma.” (MARTINS, 2003)[2]


Através da citação de Isabel Marques e Marina Martins, entende-se que o corpo na arte é percepção, cognição, representação de mundo e pensamento, e neste viés, a estética da arte contemporânea surge para desestruturar modelos e padrões de virtuosismo do âmbito artístico. A arte é a exploração do espaço-tempo, o qual se estende para a vida e para o ambiente, um fluxo inestancável de informações.


Um corpo sempre irá desejar uma criação dada, aquela que é transferida de um corpo ao outro, por cópia, representação, forma, que não necessite do muito pesquisar ou do colaborar para seu desenvolvimento e permanência. Neste entendimento, em busca por uma arte que seja desconstruída de seus padrões, o colaborar se coloca como discordar, discutir, dialogar, não é doação, não se encerra com a ação, processos colaborativos envolvem confiança e desestabilizações.


É nesse viés que a linguagem da arte contemporânea é apresentada, ela envolve o reconhecer o que está em um corpo e em todos os outros, sejam estes humanos ou não, determinando um compartilhamento/troca, a elaboração de informações, a colaboração. Em seu livro: “Why We Cooperate?” - “Por que nós cooperamos?” -, Michael Tomasello levanta a questão da capacidade da linguagem verbal se relacionar com uma intencionalidade compartilhada, presente nos animais e na natureza. O autor afirma que a linguagem natural se dá nesse compartilhamento de gestos através da cognição e que sem esse convívio de troca e sociabilidade, a linguagem não seria desenvolvida.


Um corpo é afetado quando vê algo que nunca viu e viveu antes, isto provoca estranhamento, e como Freud diz: o que nos governa é o inconsciente e a consciência, assim, a todo o momento há uma indisponibilidade na compreensão de tais afetações, provocando uma aversão e repulsa, não sobre as questões apresentadas, mas sim sobre a estética, e é essa a incompreensão sobre a arte contemporânea no século XXI.


A troca é constante, o observador, mesmo em sua repulsa, fica implicado na obra. O olhar não é neutro, ele vê e modifica, o corpo se modifica e ele vê, é uma coevolução. Sebeok (1991) diz que o contexto nunca é passivo e estático, ele existe, é o contexto-sensitivo.


“O espaço está no corpo e o corpo está no espaço, e estes se interpenetram. O dentro e fora, estão em continuidade em um lugar que, a cada instante é outro, eles são o palco das manifestações do inconsciente: partes esquecidas, lapsos de movimento, lesões involuntárias. É um corpo desejante, em que todo movimento expressa o desejo de “ir a algum lugar” (mesmo não intencionalmente), revelando, portanto, a falta-a-ser e o vir-a-ser do sujeito desejante.” (MIRANDA, 2008)[3]


O desejo é a condição de permanecer na sociedade, e com o aumento da velocidade dos corpos, não apenas da locomoção, mas dos meios de comunicação, surge este corpo bólido, ávido por informação e em busca de uma diferente identidade. Todos desejam ser únicos, porém, essa singularidade não é possível pelo fato de o modo de vida urbana ser imposto a uma massa, a qual não contempla singularidades.


Este entrar e sair, sair e entrar de pessoas, de informações, de mudanças de conceitos e políticas, de olhares, implica hoje, na quantidade de comunicação que pode ser acessada por um único corpo. As informações e caminhos se cruzam, a todo o momento, um entra e sai de memórias, passados revisitados, são compartilhados através de inúmeros canais - auditivos, visuais, corporais, alguns causando estranheza, outros, identificação ou gratificação e todos estão permitidos sair e entrar - sós ou não - em espaços, tempos e ritmos, são relações e ações simultâneas, conectividade.


Conectividade é a capacidade que um sistema tem de estabelecer conexões heterogêneas, propondo uma comunicação, onde ambas as partes mudam de história mutuamente e no mesmo tempo-espaço. São relações parte a parte, caracterizando e construindo estruturas, são signos encadeados, conectados, que se utilizados constantemente, se tornam coesos e mais eficientes.


Essa conexão, o relacionamento entre artista-público, entre o corpo-espaço, coloca a arte como parte do jogo da evolução, onde o artista pode elaborar o ambiente e suas relações a fim de fomentar autonomia e permanência, trabalhando com as possibilidades da realidade, com elementos que podem vir a ser. Assim, a arte consciente e conectada é sempre um processo não linear e evolutivo, as propriedades sistêmicas de um corpo mudam no tempo-espaço devido a informações trocadas com outros corpos.


Quando Angel Vianna propõe em seus estudos de corpo a investigação do corpo para a consciência do movimento, trata de relações conectivas de corpo-espaço, trazendo integralidade, funcionalidade e extrema organização para a prática da arte contemporânea. Defendo, portanto, a hipótese levantada por Jorge A. Vieira: “A eficiência do movimento e do corpo em sua organização e em sua relação com outros corpos e ambientes geram estética.”


A consciência do movimento e de suas conexões estabelecidas propõe uma nova espacialidade e novas relações a cada instante, como em um sistema evolutivo. São estados subjetivos do corpo que interagem com o objetivo, com o real. São estados corporais que a todo o momento são transmutados pela realidade vivida, em colaborações de dentro-fora-dentro, por espaços ocupados, por relações criadas. São corpos singulares criando um corpo plural, que se torna parte do todo e que se insere nessa aquarela contemporânea de alta complexidade.

[1]MARQUES, Isabel. Linguagem da Dança. Arte e Ensino. São Paulo: Digitexto, 2010, pg. 89. [2] MARTINS, Marina. O avesso do visível. Rio de Janeiro: Revista Gesto número 3, 2003, pg. 37. [3] MIRANDA, Regina. Corpo-Espaço. Aspectos de uma Geofilosofia do Corpo em Movimento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.


Por Dani Greco

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