A virtualidade do corpo e o Teatro Contemporâneo (1)

(O corpo cênico coletivo como entre-lugar da cultura)


“O corpo contemporâneo é um lugar de transição, de atravessamentos,

de reordenações múltiplas e ramificadas.” (MARQUES, 2010)


O corpo contemporâneo é um corpo fragmentado, que sofre as mutações de uma globalização acirrada e de uma cultura cênica de massa, a saber, uma cultura que é transmitida pela mídia, seja esta TV, rádio, redes sociais, aplicativos de celular, as informações são replicadas em massa, a fim de cumprir com o objetivo de configurar e controlar os corpos que interagem com estes canais, moldando-os para os seus próprios interesses, sejam estes capitalistas, políticos ou sociais.


Na oposição a esta massa homogênea, que embaça a potência da singularidade de cada corpo, imobilizando-o, proponho o conceito de “Multidão” em Antônio Negri, para discutir o corpo cênico que se faz coletivo no teatro contemporâneo. A multidão está em nós, cada corpo que compõe este corpo coletivo carrega em si a multidão na potência de suas singularidades, são corpos que não se anulam, mas que ao se relacionarem potencializam-se, podendo assim agir e resistir às forças de poder que os atravessam.


Este corpo coletivo se cria em composição, onde nenhuma das partes se anula, mas, como diz Peter Pál Pelbart: “Num plano de composição, trata-se de acompanhar as conexões variáveis, as relações de velocidade e lentidão, a matéria anônima e impalpável dissolvendo formas e pessoas, estratos e sujeitos, liberando movimentos, extraindo partículas e afetos. É um plano de proliferação, de povoamento e de contágio. Num plano de composição o que está em jogo é a consistência com a qual ele reúne elementos heterogêneos, disparatados. Como diz a conclusão praticamente ininteligível de Mil Platôs, o que se inscreve num plano de composição são os acontecimentos, as transformações incorporais, as essências nômades, as variações intensivas, os devires, os espaços lisos - é sempre um corpo sem órgãos.”.


No Corpo sem Órgãos habita tudo que foge à vida anestesiada, tudo que desfaz o entorpecimento da rotina., tudo que produza intensidade, tudo que gere novos agenciamentos e aumento da potência. Ele retoma a potência da existência, ele procura se expandir para novas realidades.


Nesse sentido, o corpo cênico coletivo dá-se como este Corpo Sem Órgãos, um corpo heterogêneo, disperso, complexo e multidirecional, que sugere uma relação imaterial ‘entre’ corpos, onde, como em um rizoma, não existe um centro ou uma posição que represente o todo, não havendo sujeição, mas sim resistência, para que a vida possa, em toda sua potência, continuar existindo.


Borram-se as noções de territorialidade e o corpo assume conexões com um espaço-tempo em deslocamento, com a experiência que se dá entre os corpos, criando um corpo coletivo. Na busca por uma construção de processos colaborativos por meio de cartografias afetivas, que se dão a partir de provocações compartilhadas na ação do jogo teatral, desestabilizam o corpo, provocam vibrações em sua imobilidade, colocando-o como potência, como um campo de possibilidades na construção de novos locais de cultura, estes construídos pela relação divergente entre os corpos e seus saberes.


O colaborar se coloca no contexto do discordar, discutir e dialogar. Diferente da doação, onde há um encerramento da ação, os processos colaborativos envolvem confiança e desestabilizações, onde a pesquisa/obra artística é um fluxo entre as partes desse sistema - corpo do artista, espaço-tempo, corpo do espectador.


O compartilhar é atravessar e ser atravessado, em um sentido de composição, de pôr-se com: pôr-se com o ambiente, pôr-se com o outro corpo, ver e ser visto, perceber e ser percebido. Compartilhar é criar um corpo sem órgãos, uma forma de vida infinita, num plano onde o dentro e fora se interpenetram. Com esta noção de corpo, Antonin Artaud não queria criar um objeto artístico belo, mas sim alcançar o corpo do espectador e transformá-lo.


Este compartilhamento coloca o corpo contemporâneo em questão, corpo este que é afetado por padrões midiáticos de cultura diariamente disseminados pela televisão, redes sociais e trocas cotidianas entre pessoas. Atravessando fronteiras, a globalização de uma cultura da mídia, fortalece a construção de um corpo cênico pronto para trabalhar com tais tecnologias, contribuindo para a manutenção de um corpo virtual e desmaterializado.


O Teatro Contemporâneo supõe pontos de tensão na construção de ‘atores culturais’, atores estes que assumam a cena contemporânea, a desterritorialização de um corpo não singular, fomentando hibridismos e tensionamentos, trazendo o corpo coletivo para a cena, desterritorializando-se, sobrepondo as fronteiras entre ator/espectador, cena/cotidiano, palco/plateia. O entre das relações se faz presente, colocando o corpo cênico em estado de vulnerabilidade, exposto e disponível aos atravessamentos de uma cultura híbrida e multifacetada, que pluraliza narrativas, que desterritorializa territórios, trazendo para a construção cênica a colaboração entre as partes, compartilhando saberes, potencializando o corpo para um estado vibrátil.

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