A virtualidade do corpo e o Teatro Contemporâneo (2)

(O corpo cênico coletivo como entre-lugar da cultura)


O corpo como um entre-lugar, constrói arquiteturas, projeta relações, desestabiliza padrões, colocando-se como ponto de tensionamento da experiência artística. Conforme Bhabha (1998, p. 27):


“O trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com “o novo” que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas retorna o passado como causa social ou precedente estético; ele renova o passado, refigurando-o como um “entre-lugar” contingente, que inova e interrompe a atuação do presente. O “passado-presente” torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver. (idem) (grifos do autor).


O ‘novo’ é o ‘outro’, seja este outro corpo ou espaço-tempo. E são nessas zonas de sobreposição e não-lugares, no espaço do nomadismo (como discute Deleuze e Guattari em Tratado de Nomadologia), que estão as fronteiras deste espaço-tempo, entendendo-se por fronteira um lugar de experimentação, não é chegada, não é saída, não é estar, não é passagem. Nas fronteiras os estados se diluem um no outro, permitindo sobreposições. O corpo é esse lugar fronteiriço, entre-lugar onde o novo/outro está no entremeio do espaço-tempo, sobrepondo passado-presente. O novo então seria um futuro de sobreposições, assim como o corpo contemporâneo.


O texto Tratado de Nomadologia estabelece algumas diferenças entre os jogos de tabuleiro: xadrez e go. No xadrez, as regras já estão implícitas nas ações de cada peça, a cada movimento, há uma ocupação premeditada do espaço-tempo. No go, as ações são realizadas por outro corpo, que se utiliza de simples ordenações aritméticas para seu deslocamento no espaço-tempo, mantendo assim um vasto campo de possibilidades.


Para Deleuze e Guattari, o espaço do xadrez é a polis, e o do go é o nomos. A polis tem uma estrutura definida e definidora de objetos, agentes e ações - portanto, um território constituído. O nomos se caracteriza pelo espaço do indeterminado, sem uma estrutura definidora; no go, cada lance das peças consiste num processo de territorialização e desterritorialização desse espaço-tempo.


“É a diferença entre um espaço liso (vetorial, projetivo ou topológico) e um espaço estriado (métrico):

num caso, “ocupa-se o espaço sem medi-lo”, no outro, “mede-se o espaço a fim de ocupá-lo”.

(Deleuze-Guatarri, 2007: p.25).


Bairros, rios, edifícios, avenidas, pontes, praças, monumentos, a cidade está demarcada por estes territórios, os quais são ordenadores do cotidiano dos corpos urbanos. Seus habitantes elegem lugares, dentro desse sistema, que se tornam referências para a construção de seus mapas corporais. O nômade, ao contrário dessa eleição, perde esses lugares como referência e passa a compor os mapas de acordo com sua permanente circulação, criando cartografias afetivas, de acordo com o que o atravessa e não de acordo com funções pré-estabelecidas por um mapa ou por um organismo social. Para o nômade, sua única referência é ele mesmo, o seu corpo.


Portanto, essa atitude ativa diante do deslocamento no espaço-tempo, tem como objetivo desautomatizar ações e funções do corpo contemporâneo, provocando um espaço de reflexão e tensionamento para a criação de novos estados corporais, novas cartografias afetivas, tal como novas relações com o outro, com o coletivo, através de um jogo de acontecimentos.


“(...) Quando os habitantes passarem de simples espectadores a construtores, transformadores e “vivenciadores” de seus próprios espaços (...) Uma situação construída seria então um “momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”. (Berenstein-Jacques, 2003: PP.20-21).


Portanto, o nômade, neste ato de territorialização e desterritorialização, neste constante devir, coloca este corpo como o entre-lugar, um espaço do novo, intenso e afetivo, onde a experiência com o Fora, provoca um nomadismo da existência e a emergência de um corpo singular, sempre em deslocamento no espaço-tempo.


O corpo não é, ele está sendo. O corpo é percepção, cognição e representação de mundo e pensamento, e é neste viés, que a estética do teatro contemporâneo surge para provocar novos conceitos e teorias através da desterritorialização de modelos e padrões de movimentos corporais, os quais são constituídos a partir de hábitos e vivências cotidianas, compreendendo que esses hábitos e as memórias deste corpo, são construídas através da experimentação de diferentes estados corporais provocados pelos deslocamentos no espaço-tempo.


Portanto, a linguagem da performance da cena contemporânea envolve o reconhecer o que está em um corpo e em todos os outros, sejam estes humanos ou não, determinando um compartilhamento/troca, a elaboração de informações, a colaboração. Em seu livro “Why We Cooperate?” - “Por que nós cooperamos?” - Michael Tomasello levanta a questão da capacidade da linguagem verbal se relacionar com uma intencionalidade compartilhada, presente nos animais e na natureza. O autor afirma que a linguagem natural se dá nesse compartilhamento de gestos através da cognição e que sem este convívio de troca e sociabilidade, a linguagem não seria desenvolvida.


Este colaborar pode ser feito através do olhar atento, do perceber o ambiente, o observador, mesmo em sua repulsa, fica implicado na obra. O olhar não é neutro, ele vê e modifica, o corpo se modifica e ele vê, é uma coevolução. Sebeok (1991) diz que o contexto nunca é passivo e estático, ele existe, é o contexto-sensitivo, e a emancipação do espectador acontece quando se entende que mesmo o olhar é uma ação de relação e colaboração, um “construir com”.


“... o espaço da performance é um interstício relacional entre diferenças (anatômicas, físico-energéticas, inter-pessoais, culturais, de classe, de gênero), desafiando binários e categorizações em todos os níveis

e expandindo nossa consciência, percepções e possiblidades, rumo a um ‘novo mundo transnacional’”.

(H. Bhabha)


O espaço intervalar existente entre o local e o global, entre o nacional e o internacional, se denomina como um terceiro espaço, rico em tensões fronteiriças, capazes de expandir sentidos, rumo a este novo mundo que cita Bhabha. Os processos de diferença cultural que estão no entre-lugar e a dissolução temporal que tece o texto global deve ser mapeado como este espaço transnacional, onde as diferenças são potencialidade criativa, um espaço do devir.


Segundo Ciane Fernandes, ‘o espaço da performance é um estado de transição onde o artista re-dança sua auto-etnografia cultural enquanto identidade itinerante, contrastante e desafiadora. Essa auto-etnografia implica na constante des-identificação do performer com corpos culturais vinculados ou não a uma experiência familiar ou social, mas descobertos e reinventados por afinidade ou atração pela diferença’.


Trata-se então cognição e recognição como local da cultura, o corpo através de seu aparelho sensório-motor, sendo conceito, percepção, pensamento e local de experimentação. Um não-pertencimento, um não-lugar, um não-ser, é onde se encontra nossa cultura, suas mestiçagens e processos combinativos pairam nesse entre-lugar em deslocamento, onde acontecem sobreposições e a permanência de uma cultura híbrida, rica em diferenças.


Assim, este artigo aponta este deslocamento da cultura que também pode ser provocado pelo teatro contemporâneo e seus atores culturais, respondendo a inquietações quanto a produção de um corpo cênico que é capaz de, a partir de novas propostas de compartilhamentos, criar uma outra cultura na relação ator/espectador, desterritorializando a cultura cênica atual, que parece ser imobilizada pelas cenas midiáticas atuais.


O desafio é o de sempre fomentar novos “atores culturais”, que emancipem ator e espectador a partir da arte da cena no teatro contemporâneo, que carrega esta nova compreensão de corpo cênico coletivo através de teorias e práticas compartilhadas.


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