Corpo*



“A dança pensa. Não é MEU corpo, é EU corpo”.

Dani Greco


O espaço está no corpo e o corpo está no espaço, estes se interpenetram. “O dentro e fora estão em continuidade em um lugar que a cada instante é outro, eles são o palco das manifestações do inconsciente: partes esquecidas, lapsos de movimento, lesões involuntárias. Corpo-espaço é um corpo desejante em que todo movimento expressa o desejo de “ir a algum lugar” (mesmo não intencionalmente), revelando, portanto, a falta-a-ser e o vir-a-ser do sujeito desejante.” (MIRANDA, 2008)


O desejo é a condição de permanecer na sociedade e, com o aumento da velocidade dos corpos, não apenas da locomoção diária para nossos trabalhos e em nossas atividades de casa, mas principalmente em nossa relação com os meios de comunicação, surge este corpo - eu e você - o "eu" louco por informação e em busca de uma diferente identidade.


Estamos no espaço e ele em nós, agimos ao mesmo tempo; meu corpo age em relação ao espaço e o espaço é explorado através do meu corpo. Compreendemos a nós mesmos como "corpo e espaço", como um lugar que é atravessado por muitas informações, experiências e emoções; compreendemo-nos como pessoas que podem descobrir novos conceitos, somos um campo de possibilidades e de sobreposições.


Maurice Leenhardt fala de ‘identidade de substância’, entre corpo humano e corpo vegetal, de correspondência de estruturas: “O corpo humano é feito desta substância que verdeja no jade, forma folhagem, enche de seiva tudo o que vive, resplandece nos rebentos e nas energias sempre renovadas. E como o corpo fica completamente cheio desta vibração do mundo, não se distingue dele”.


O ser humano é um todo indivisível, e as palavras de Cristo nos fazem refletir sobre a vida como uma só, todos são tratados como corpo vivente e não como apenas uma alma encarnada. O corpo é o homem, em sua totalidade.


E formou o Senhor o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas

o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.” (Gênesis 2:7)


Pó da Terra (corpo-mente) + Fôlego de Vida (espírito)

Alma Vivente (corpo/mente/espírito)


Nesse sentido, compreendemos que corpo e espírito são inseparáveis, uma vez que o espírito é nossa ponte com o espiritual. Uma pessoa sem espiritualidade é alguém cujo espírito está “morto”, pois está separado da fonte da vida, de sua primeira identidade. Tal ser se encontra desconectado do todo do universo, da matéria prima de que foi feito, portanto, para que possamos ser seres humanos totais, precisamos nos conectar com nossa espiritualidade, pois assim fomos criados.


“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração,

e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.” (Mateus 22:37)

Mas e a mente? Onde fica nessa identidade? Rudolf Laban acreditava que cada ser carrega consigo uma bagagem física, cultural e social que o caracteriza a ponto de podermos traçar um perfil de sua personalidade por meio de sua movimentação corporal.


Acredito que esses são os primeiros passos para a compreensão da aproximação entre a mente e o corpo. Nosso corpo é o reflexo daquilo que pensamos ou pensamos aquilo que nosso corpo nos sugere? (MOMMENSOHN & PETRELLA, 2006, p. 215)


Os corpos são uma coleção de informações que permanecem em constante evolução, a qual muda a cada instante dependendo das trocas, comunicando a visão de mundo de um indivíduo para o outro, como afirma a Teoria Corpomídia (KATZ&GREINER): “o corpo é um estado provisório de constituição de informações que o constitui como corpo (KATZ, 2005)” .


A “abordagem teórica vem alicerçada sobre a semiótica peirceana nos usos do conceito de fluxo permanente (semiose[1]), nas teorias evolucionistas darwinianas (entre as quais se destacam o meme de Richard Dawkins[2] e a concepção de mente de Daniel Dennet[3]) e da abordagem filosófica do papel das metáforas na construção da percepção proposta por George Lakoff e Mark Johnson[4]. ” (KATZ, 2005 apud MACHADO, 2007, p. 34)


A Teoria propõe que qualquer corpo é mídia de um ser humano, ele contém uma coleção de informações que permanece em constante evolução, dado que a realidade é mutável, os ambientes e seus sistemas se modificam a todo instante, suas propriedades não são independentes, se uma se modifica, as outras também se modificam.


A ideia de mídia aqui proposta refere-se ao modo do corpo existir. O corpo como mídia de si mesmo, sempre na condição de “sendo”, por onde as informações se tornam corpo e não atravessam o corpo. De acordo com Katz, não se trata do conceito de mídia como veículo por onde algo passa para ser exteriorizado - como, por exemplo, a TV, um aparelho por onde entra um sinal que carrega uma informação, que é lá processada e emitida, deixando o aparelho tal qual estava antes dessa operação. Pois, o corpo não é um veículo processador de informações, o corpo comunica a si mesmo e não algo que o atravessa sem modificá-lo. (KATZ, 2005)


O corpo, desse modo, não é, ele está sendo, e é neste contexto que se define no espaço-tempo. Na qualidade de fenômeno artístico, o corpo é, simultaneamente, objeto pelo qual o artista produz seu discurso simbólico, veículo sensível que traz à superfície inúmeras intenções e vozes ocultas.


O corpo é sujeito que elabora poeticamente as informações e experiências vividas, assim, transmuta palavras, sensações e intenções em imagens que integram posturas, atitudes e gestos, fundindo a massa corporal com a fluidez da alma. (MARTINS, 2003, pg. 37)


“Ao ser fotografado [...] - na relação entre ver e ser visto - surge, pela primeira vez, a sintonia entre o corpo e o espírito.” (Kazuo Ohno, Alimento para o espírito, 1999)


[1] Termo que designa o processo de significação, a produção de significados. [2] Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins - etólogo, biólogo evolutivo e escritor britânico - no seu bestseller “O Gene Egoísta” e é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma auto propagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética. Quando usado num contexto coloquial e não especializado, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra. Este uso aproxima o termo da analogia da “linguagem como vírus”, afastando-o do propósito original de Dawkins, que procurava definir os memes como replicadores de comportamentos. (WIKIPEDIA)

[3] Filósofo americano, Dennett articula que a consciência interior não está referida apenas em um lugar no cérebro, ela se dá através de inputs e outputs, formando uma rede por onde toda a informação se movimenta.

[4] A metáfora é uma figura de linguagem que compara seletivamente, destacando as qualidades de um sujeito consideradas importantes para aquele que a usa. Para eles, a metáfora é uma ponte que liga domínios semânticos diferentes fazendo, assim, com que percebamos novos caminhos para a compreensão do sujeito. A metáfora é uma maneira de expandir os significados de palavras além do literal ao abstrato e uma maneira de expressar o pensamento abstrato em termos simbólicos.


*Esse texto é parte do livro "METANOIA" de Dani Greco.

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