Corpo, Memória e Performatividade (parte 1)


A proposta desta instalação foi de estabelecer um ambiente de reflexão sobre corpo, memória cultural e lugar, criando um clima burocrático e protocolar para a atividade do banho de sol. Estimula as associações contraditórias como uma forma de pensar o corpo como parte do lugar e do tempo. Neste sentido, a ação [corpo] sugere um corpo extra cotidiano no cotidiano [memória] numa ressignificação da ambiência [lugar].

A instalação propõe um espaço aberto para incorporações e infiltrações do público, a comunicação entre sistemas, o trânsito de informações e as alterações de protocolos de ações corporais e espaciais. Procura estabelecer o conceito sobre performatividade, através de protocolos, rupturas protocolares que dizem respeito ao corpo, a memória e ao lugar compartilhados.


“O estado atual é feito de acordo com os estados passados, manipulados pela memória do sistema.” (BUNGE. Tratado Básico de Filosofia VL.4, pg. 247).


Trazer o banho de sol, deslocando-o para uma ambiência outra, propondo a re-significação do espaço, a performance projetada também se intenciona como instalação para dar abertura para a interação dos corpos, trabalhando não somente com a re-significação do ambiente, mas também com a memória do espaço e das pessoas que interagirão no local.

E é neste entendimento que os corpos são dados como atravessamentos, o corpo como um lugar, o corpo como uma ambiência, moldado por memórias de um passado que é presente e de um presente que é passado.


“Ação protocolar para banho de sol” é uma performance que busca criar um clima formal, protocolando e burocratizando o banho de sol, sendo o protocolo como um dispositivo de ação. A ação propõe a ressignificação de ambiências, deslocando sentidos. PENSAR EM corpo, memória e perfomatividade no espaço público sobrepondo ambiências.

O método e a metodologia sendo questionada há um produto final? Trazer a ambiência de um lugar experienciado por todos, mas que no cotidiano está apenas na memória. Hoje o turismo mais forte talvez seja o turismo cultural e o trajeto urbano para o litoral, como é este turismo e a incorporação desses e nesses lugares? Há incorporações por parte do turista? A mestiçagem de culturas permite ou não o anonimato nas multidões?



As funções memória e correlação nos processos criativos do “corpoambiente”


Todo sistema tem uma memória, seja este vivo ou não vivo. Memória entende-se aqui não por estocagem, mas a maneira como o sistema elabora a informação. Memória é transiente e não estática, se dá pela genética e orienta nossa existência, ela pode ser conservadora ou adaptativa e é esculpida por ambientes e experiências que o sistema vive.

Dado um sistema este possui propriedades, e quanto maior for sua complexidade, mais propriedades ele possui, porém não há como conhecer todas, assim, elegem-se algumas variáveis relevantes que o melhor representa. As propriedades não se alteram, o que muda é a intensidade com que estas se manifestam, ou seja, sua variação no tempo.

Portanto, sistemas sempre se encontram em algum estado, entendendo-se por este a coleção de intensidades de suas propriedades em determinado instante de tempo. Se o sistema é aberto, com o passar do tempo estes estados vão se alterando de acordo com a internalização dos signos representativos presentes nos ambientes vividos. Se ele ignorar os estímulos do ambiente ao seu redor, o estado será uma construção feita a partir da memória do sistema, a elaboração de estados passados.

A internalização de relações em sistemas abertos provoca alterações em seus estados, gerando a instabilidade, comprometendo a permanência do sistema. Os elementos vão se tornando internos progressivamente, até esta coleção se tornar hábitos. Esta elaboração traz o conceito de tempo da irreversibilidade, onde um sistema está sempre elaborando suas propriedades de modo que os estados gerados nunca são os mesmos já vividos, pois a coleção já adquiriu novas formas.

Sendo o corpo do ser humano um sistema aberto que se relaciona a todo instante com o ambiente, um sistema complexo que elabora a intensidade de suas propriedades no tempo, este cria coerência de sua memória com o mundo. É uma relação da parte com o todo, construindo significados, formas. Quando o critério de coerência muda, o sentido muda, surgindo uma nova coerência. Há um estímulo e uma resposta, causa e efeito, do corpo para com o ambiente e do ambiente para com o corpo, são efeitos distintos que mantém uma relação, juntos causam algo, há uma memória partilhada.

Entendendo o corpo como sistema aberto e a memória deste elaborando estados passados em relação com o ambiente, desloco esta informação para os processos de criação do corpoambiente, fazendo um contraponto com duas pesquisas minhas intituladas: “Aquarela” e “(I) Racionar o Ambiente”. Ambas tratam das memórias e estados corporais em relação com o ambiente e vice versa, o grau de afetação de um para com o outro tal como a internalização de signos representativos do ambiente que podem gerar movimentos e formas neste corpo permeável.

Corpoambiente aqui se entende pelo espaço ocupado pelo corpo do artista, pelo corpo de quem assiste e pelos corpos e signos presentes no espaço-tempo em que a pesquisa se dá. Esta complexidade é determinante para uma possível troca e diálogo, criando coerência e estética no todo.

Durante as pesquisas, fica clara a relação entre ver e ser visto, e como estes olhares deslocam a pesquisa, por vezes para lugares antes nunca experimentados. O diálogo e a internalização das experiências e as colaborações de cada corpo geram mutações e hibridismo na experimentação, enriquecendo o corpoambiente, resignificando movimentos, formas e impregnando de sentidos as pesquisas em questão.

O corpo, “administrador” e colecionador destas informações/signos do ambiente, entra em crise ao colidir com corpos heterogêneos, sendo afetado e contaminado por tais memórias. O corpo se vê, vê os outros, os outros se vêem, e se vêem neste, é um diálogo de corposambientes, um sistema aberto, eficiente, coerente, estético, onde este estético é o verdadeiro, e o verdadeiro o corpo presente, a consciência das relações.

Portanto, revisitando as propriedades do sistema e os ambientes com que este se relacionou, prevê-se que o estado corporal nunca será o mesmo e os espaços construídos por estas transformações exteriorizam sensações, memórias, histórias de corposambientes, corpos estes que são parte do todo, que resignificam os instantes. A irreversibilidade do tempo e a intensidade das propriedades mudam a cada instante, fazendo com que o sistema reelabore a informação a fim de alcançar a permanência e coerência em seus processos criativos.


Do livro ‘O Fazer-Dizer do Corpo - Dança e Performatividade’ de Jussara Setenta


“A performatividade se caracteriza por movimentos inquietos, questionadores, aqueles que não se satisfazem com respostas já dadas e trabalha para perturbar o domínio do, o quê, para quê, quem, porque, em favor de um como que precisa ser sempre construído. Não tenta fixar o presente, desloca-o.

Traz ao presente marcas passadas e indica, no mesmo presente, marcas futuras.”


Continua na próxima semana...



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