[crítica] "AUÊ" - Barca do Corações Partidos


“Segundo Aristóteles, o bailado exprime as acções dos homens, os seus costumes e as suas paixões.” (Claude-François Menestrier)


Quando a leve e sagrada poesia de seu som tocou a minha pele fria e sedenta de caos, o vermelho encarnou-se fumegante, em chamas de amor e saudade. Então, foi aí, que num breve instante de suspensão, se fez auê em meu coração.


Uma alegoria digna de cupido, e daqueles que sabem o que estão fazendo, acertam o alvo. A Companhia Brasileira de Movimento e Som, a Barca do Corações Partidos com seu Auê, entrou na arena, tomou conta do picadeiro, fez do seu chão movimento.


Corpos em uma unidade visceral, tônus firme, leve, sustentado, súbito; texto contado e cantado em respirações a aspirações de um corpo presente; instrumentos sendo corpo, cena, texto; iluminação recortando e desenhando som em movimento. Movimentos que permeiam danças precisas, solos, duos, trios, cenas escritas para contar ao público relações de afeto, canções que abarcam expressividade e disponibilidades cênicas.


Definições não abarcam o que este espetáculo traz. Podemos dizer que é um show, uma peça, um espetáculo de teatro musical, um espetáculo de dança contemporânea, mas felizmente, nenhuma dessas definições em caixas dão conta deste Auê. É então um novo gênero para o teatro musical e as artes da cena contemporânea?


Homens que são praticamente borboletas, homens sóis, que com sua presença e autonomia de ação na cena, me trouxeram a lembrança o Rei Luís XIV, o denominado Rei Sol, que com suas danças em seus grandes salões de arena, fez o ballet despontar na aristocracia. O Rei que em 1661 criou a Academia de Dança apenas para homens, em 1669 a Academia de Música, e que em 1672 as uniu, dando origem ao que conhecemos hoje como Ballet da Ópera de Paris.


No entanto, a contemporaneidade dos corpos deste Auê em cena, me recordam também Nijinsky, que com sua “Sagração da Primavera”, quebrou com a estética do ballet, trazendo para a cena elementos e movimentos cotidianos, que com outros vetores espaciais criou-se uma outra noção de representação do corpo na cena, rompendo repentinamente estruturas que se mantinham intactas por muito tempo. Nijinsky, provocou então, um auê.


Não estamos mais na época de Luís XIV, muito menos na de Nijinsky, mas a compressão dessa história nos ajuda a entender que a contemporaneidade não se guarda em caixas. Ela tem propriedades que navegam rio afora, sem medo de se apaixonar por outras propriedades. O contemporâneo é ciumento, é apaixonante, é caloroso, é vermelho, mas ao mesmo tempo ele ama tanto ao ponto de deixar partir a barca.


O contemporâneo é um auê, com suas redes de relações e seus rizomas - O rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga." (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p. 32-33) - nada tem uma origem definida, as coisas se entrelaçam em uma dança indecifrável, em uma cena envolvente, em um jogo de composição. O contemporâneo voa, como uma linda borboleta.


O texto está ali, nas canções cantadas, canções encenadas, interpretadas, dramatizadas. A dança está ali, no jogo de corpos no espaço e as qualidades com que cada artista executa seus movimentos em relação a um todo. A música está ali, nos instrumentos tocados com maestria, em forma de dança, em forma de texto, em forma de iluminação, em forma de figurino. Ondas sonoras que ecoam no corpo, no espaço, no público, que ecoam nos corações que navegam por breves instantes, juntos a esta barca.


“A barca é o tempo da cidade”, uma frase poética que abarca todos os desejos e qualidades de um espaço, de uma arquitetura corporal, suspensão, leveza, caos, elementos surpresa, a quebra de expectativas, o movimento repentino que nos tira da zona de conforto, aí está a cidade, no corpo de cada integrante da Barca, aí estamos nós.


por Dani Greco

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