[crítica] "Baseado em Fatos Reais" - Ângelo Madureira e Ana Catarina



Dia 13 de julho de 2010 assisti ao espetáculo "Baseado em Fatos Reais" nos Encontros de Dança no TUCA/PUC. Logo após o espetáculo tivemos uma conversa com os intérpretes e com Helena Katz, que comentaram um pouco sobre a dinâmica de construção do espetáculo. O processo de criação utilizado foi simples, porém este fomentou a individualidade em cada um dos intérpretes tal como no todo da dança.


Falando um pouco sobre o processo de criação, Ângelo e Ana Catarina resgataram diversas fotos de espetáculos seus anteriores, fotos de determinados movimentos - muitas fotos! A partir destas fotos nos ensaios eles iam tirando os movimentos de cada uma, cada corpo entendendo e transmitindo o movimento da sua maneira, suas qualidades, tensões, contextos e formas.


Os ensaios se deram nessa construção, as fotos eram sorteadas aleatoriamente e as frases de movimento eram construídas a partir da seqüência em que as fotos iam sendo escolhidas. O processo demorou 9 meses porém não foram registradas seqüências próprias com a finalidade de serem utilizadas na apresentação, durante os ensaios o que era trabalhado ficava apenas no corpo como pano de fundo para uma improvisação. O interessante ao final foi ver como cada corpo encontra formas de ligar um movimento ao outro, todas diferentes, com qualidades específicas.


Com este saber concluo que o corpo fala, pensa e age. É rico em memória e cada corpo se expressa de uma maneira, tem um repertório próprio e isto não pode ser ignorado enquanto dança/espetáculo. Não há como todos dançarem identicamente, cada pessoa tem seu jeito, sua forma de se expressar em um tempo/espaço, que é única.


Assistindo então ao espetáculo, consegui entender como é trazer essa memória corporal para a dança, o que é trabalhar com o que cada um possui, apresenta e oferece para determinada dança. Penso que o corpo pode ser mutável, mas nunca transformável, ele sempre será o mesmo, podendo ser reelaborado ou reorganizado, nunca sendo permanente, pois o permanente não permanece e tudo aquilo que passa pelo nosso corpo através de nossas vivências fica “grudado” no mesmo, as experiências aderem ao corpo e todos conseguem ver de fato aquelas vivências corporais em um espaço-temporal.


Portanto, a dança contemporânea pensa e vive o corpo em seu passado e presente, passado este que não deve ser abstraído e escondido por práticas disciplinadoras e processos de criações de corpos em massa.


Trazendo este espetáculo a minha prática diária, percebi que nas aulas adoto este caminho de deixar com que o corpo de cada aluno traga para sala aquilo que já está processado nele, respeitando as diferenças e memórias corporais. Claro que é um desafio constante, pois é uma quebra de padrões constante...


Na época que escrevi esse artigo, percebi que o grupo de dança contemporânea do qual fazia parte estava em total desacordo com meu discurso sobre a dança hoje em 2010 - talvez tenha sido por isso que a Cia não se sustentou. Tínhamos um espetáculo chamado “O Habitante de Lá”, onde trazíamos questões do cotidiano e vida em comunidade, seus desafios, dificuldades e até passado.


Foi triste perceber que o processo criativo e toda a coreografia estavam inseridos ainda no contexto da disciplina corporal, dos corpos em massa executando um mesmo movimento - não passos de balé, mas no mesmo contexto - todos devem fazer o movimento perfeitamente igual.


Isto me levou a certas questões (e ainda me carrega para elas!!) - por quê não podemos trabalhar com o repertório que cada corpo oferece? Por qu^Çe temos que ter o virtuosismo como norteador de um bom espetáculo? Por quê esses padrões - como o virtuosismo - ainda permeiam, e estão implícitos em nossos processos de criação? Por quê alguns artistas do corpo ainda não possuem, ou não querem ter, uma percepção da arte contemporânea?


Até quando a dança será tratada apenas como algo virtuoso? Algo produzido por uma massa visto por uma massa, gerando massas...!? A teoria de corpomídia se perde, pois o corpo não consegue transmitir com maior clareza e propriedade suas próprias sensações, tensões, memórias. E tudo cai em uma educação corporal disciplinadora, em um enquadramento, em um único recorte, seja no balé, na dança contemporânea, no afro, no street, na salsa, no axé e por aí vai.


O dar o corpo a uma pessoa está tão longe quanto um projeto de pequeno porte como o meu entrar em um edital. Até quando vamos desejar e produzir esses corpos dóceis?


por Dani Greco

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