[crítica] “PERMITIDO SAIR E ENTRAR (Recriação)” - Key Zetta e Cia


Direção: Key Sawao e Ricardo Iazzetta

Criação e Dança: Beatriz Sano, Daniel Fagundes, Eliana de Santana, Júlia Rocha, Key Sawao e Ricardo Iazzetta

Espaço Cênico e Coordenação de Arte: Hideki Matsuka

Realização: key zetta e Cia., contemplada pelo Programa de Fomento à Dança VIII Edição

O Lugar - Rua Augusta, 323 - 12 de Novembro de 2010


Do release: A partir da encenação realizada anteriormente em 2006 aberta à novas visitações e propostas, recriamos, “Permitido sair e entrar”, espetáculo livremente inspirado no livro “O inventor da solidão” de Paul Auster. “Um dia há vida. Então, subitamente, acontece a morte”. Assim começa o livro de Paul Auster, que faz um mergulho na memória a partir do momento em que o narrador/autor enfrenta a morte do pai. É a consciência da finitude que ocasiona uma mudança de experiência do mundo possibilitando que todas as coisas ganhem movimento. Corpos povoados - trânsito - ambiente.


“Permitido sair e entrar” dialoga com outro trabalho realizado pela Cia., inspirado na obra de Samuel Beckett - “SÓS” - que encontra comunicação em aspectos da solidão. É visível esta solidão nos corpos em cena, não uma solidão sem acolhimento, mas um “só” amparado por linguagens concretas do corpo, esteja este pausado ou no seu momento de maior intensidade de movimento. O ritmo, espaço entre os corpos, espaço entre espaços, o rápido, o lento, a pausa, determinavam a dinâmica desta solidão.


A dinâmica espacial comunica este entrar e sair, e entrar novamente, tanto dos corpos a dançar relacionando-se em cena, quanto do espectador, que escolhe entrar/perceber certos corpos e espaços, ou, “sair de cena”, levado por pensamentos de seu próprio momento de solidão, seus problemas, suas perdas, sua vida e possível morte.


No livro, Paul Auster trata da solidão após a morte de seu pai: traz esta morte como algo no passado, que, porém quando lembrada, traz de volta aquele que estava ao seu lado. Assim é no espetáculo, este sair e entrar de/em uma memória, um fato, um movimento, uma cena. É nesta solidão e silêncio, que muitos caminhos se cruzam, que é dada a comunicação, de mundos interiores e exteriores.


Quando um percebe o outro em sua solidão, há o acolhimento, seja este condicional ou incondicional. Os movimentos se repetem com memórias diferentes, juntam-se dois ou três na cena, todos executando o mesmo movimento, porém, suas espacialidades diferem-se, cada dançarino; e por que não cada espectador; tem sua autonomia e memória, o que modifica a organização do movimento nos corpos. Lembram-se, identificam-se, entram, há certa coerência e em determinados momentos, apenas coesão, trocam e saem, deixando e levando consigo como gratificação, memórias do outro.


Assim como os dançarinos saíam e entravam nas memórias dos outros, como espectadora, este sair e entrar no corpo dos dançarinos, principalmente, no de Ricardo Iazzetta, ativou o passado em minha memória com o espetáculo visto em 2009, “Noiva Despedaçada”. Movimentações, pausas, respirações, fala, o modo como se utilizar de um corpo quase nu em cena, enfim, todos estes elementos remeteram-me à linguagem que compunha a cena do antigo espetáculo. Foi rico perceber como um espetáculo revisita o outro através destas memórias do corpo, e como é interessante tratar do tema corpo/mente não como uma dicotomia.


Então, o sair e entrar também não podem ser nomeados como uma dicotomia, pois ambos se relacionam, se comunicam, trocam informações no caminho, trazem algo e levam outro algo de volta. São como dispositivos contendo informações, que vão de um sistema a outro, ativando linguagens, elementos concretos em diferentes corpos. Novamente, o passado é revisitado, trazendo para o presente um novo diálogo, uma proposta de criação.


Relacionando este entrar e sair com os freak shows do final do século XIX, a solidão do monstro, em seu silêncio, com suas memórias, seu passado presente, afetou de que maneira aquela sociedade? A indústria do entretenimento mudou após a migração desses monstros ao cinema, por quê?


O entra e sai de pessoas daqueles parques de diversões, ocasionava o voyeurismo. Pergunto: será que hoje não vamos à espetáculos, procurando o voyeurismo, em possíveis exibições de corpos torneados e anormais, discussões políticas, algo que perturbe o direito de nossos próprios valores? Somos seres extremamente políticos, e, no entra e sai de nossas memórias, há sempre um acontecimento ou uma questão política envolvida. E esta questão se traduz como o monstro, a solidão, o silêncio, quase um segredo para os outros.


O cinema, que revisitou os parques de diversões, trouxe seus “revenants” (de revenir, o que vem de novo, o que retorna, em português: aparição, fantasma)¹, o que vejo neste fato, uma inclusão para exclusão, assim como acontece com os artistas contemporâneos em vista da sociedade “politicamente correta” de hoje.


O monstro tinha sentimentos, era um ser humano, não era fora da lei, apenas não aderia a seu tempo, e com a passagem do entendimento de anormal para uma suposta enfermidade, eles foram alocados como “doentes”, pessoas que necessitavam de uma reeducação. Os monstros causavam estranhamento, eram reais demais, e assim, foram banidos da cena do entretenimento.


Este entrar e sair, sair e entrar de pessoas, de informações, de mudanças de conceitos e políticas, de olhares, implica hoje, na quantidade de comunicação que pode ser acessada por um único corpo, seja este criança, jovem ou adulto. As informações e caminhos se cruzam, a todo o momento, um entra e sai de memórias, passados revisitados, são compartilhados através de inúmeros canais - auditivos, visuais, corporais. Alguns causando estranheza, outros identificação, gratificação, porém, todos estão permitidos sair e entrar - sós ou não - em espaços, tempos e ritmos que escolhermos.


Com isso, “a partir deste ponto propomos o início de um movimento e o estado de um processo de criação.” (key zetta e Cia)


por Dani Greco

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¹COURTINE, Jean-Jacques. “Les mutations du regard: Le XX siècle.” Histoire Du Corps: pg. 320.

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