[crítica] "Utopias Reais" - Orquestra Manouche


O espetáculo é de uma banda performática chamada “Orquestra Manouche”. Manouche, significa cigano; ausência de fronteiras, e é este conceito que inspira a sonoridade do grupo, uma companhia de artistas performáticos, formada por onze músicos, compositores e arranjadores experientes, que tem como premissa o desenvolvimento de espetáculos inteiramente autorais e imagéticos, somando movimentação e performance à música.


“Utopias Reais” teve direção de Letícia Medella e a participação de uma atriz, circense e clown, que costurava cenicamente canções e poesias. Com uma linguagem inovadora, na música e na estética, os artistas dão vida aos objetos cênico-musicais, revelando o temperamento da personalidade de cada instrumento, como um ser vivo que se expressa por vontade própria. As canções são todas performadas pela atriz que dá vida ao corpo do espetáculo, utilizando lira, bolhas de sabão, folhas de papel e diversos elementos que são parte da dramaturgia corporal construída por ela e pelos músicos também.


Todos os elementos estão em plena relação com o corpo, inclusive os instrumentos, que são apresentados em sua forma utilitária comum, mas também, são em alguns momentos, belamente ressignificados na relação com o corpo e com a cena. Uma dilatação desses objetos para o espaço é notável, eles tomam o ambiente e constroem novas ambiências a partir de sua atuação na relação com o grupo, incorporando o espaço ao espetáculo.


Tanto a atriz como os músicos possuem uma forte atuação e uma vasta paleta de qualidades de movimentos, que são utilizadas em estados de prontidão e atenção, que levam o público a desejar uma imersão a cada minuto do espetáculo. O espaço cênico dilatado, rompe a fronteira entre palco-platéia, provocando no espectador a sensação de estar dentro da obra, colocando a música mais perto dos ouvidos e do corpo de cada um.


O grupo respira junto, e mesmo aqueles que estão de fora, apenas observando a cena que se desenvolve, existe uma unidade entre eles que é compartilhada nas canções e no canto, tal unidade que também se mostra presente no figurino único com cores próximas que desenham uma determinada estética de “estamos em obras”.


O tônus cênico e a presença de cada um, cumprem com as demandas da cena, cada canção tem uma ação diferente, com um tônus diferente, com linhas e espaços bem delineados, o que auxilia o público no entendimento da letra de cada música.


O trabalho então se mostra com uma consistência bastante palpável no que se diz respeito ao corpo e as propriedades cênicas que estão imbricadas neste contexto. Há de se concordar que houve uma escolha com relação aos objetos, ao tônus e a ação de cada parte do espetáculo, contribuindo assim para a incorporação do público na jornada de um show/espetáculo.


por Dani Greco

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo