[crítica] "Vala Comum" - Impulso Coletivo


Quando não se tem estômago para aguentar os tormentos da vida cotidiana, fazemos arte. E foi isso que o Impulso Coletivo fez nessa obra de site-specific, com direção de Ivan Sugahara.


Um casarão na Tijuca foi o lugar escolhido para dar vazão aos gritos de nossos tempos. Tiroteios, injustiças, a carne humana apodrecida nos hospitais, a carne animal sucateada e condenada a morte diária, o estupro da mulher, as condições infantis, a indústria capitalista do mercado, a vida humana.


Em cada cômodo do casarão foi realizada uma instalação cênica, que contava ao público, restrito a 15 pessoas, as lástimas da vida diária, os soluços, a imundice, a escuridão, os gritos que suportamos. Todos os espaços foram construídos a fim de provocar no público emoções e vivências a que alguns seres humanos são obrigados a conviver, sem poderes de escolhas, assim em um longo trajeto, o público era guiado por atores através de uma dramaturgia densa e caótica, que apresentava o processo de produção de carne bovina: da fertilização da vaca ao churrasco de domingo, passando pelo abate dos animais.


Por se tratar de um projeto itinerante a relação entre os atores era estreita, as transições foram construídas a fim de que em nenhum momento o público se sentisse perdido ou desamparado, de modo que um estado de atenção de todos os envolvidos (atores e público) foi fomentado desde a primeira cena, onde todos são levados para um quarto pequeno sem luz e sem janelas.


Porém, o domínio da prontidão de todos os atores não estava nivelado, alguns se mostravam mais sagazes na condução do público e nas próprias cenas, deflagrando que a preparação do corpo não foi bem o foco do processo. Assim como os movimentos, por muitas vezes improvisados em algumas cenas, sem total domínio dos mesmos, por vezes também apresentando falta de preparo e atenção presente de alguns atores.


Havia uma unidade na fala, na qualidade como o texto era contado, cada cena tinha um timbre específico e formas de ação bem delineadas, mas apenas alguns atores mostravam domínio na relação desta fala com o corpo. Percebo que não houve preocupação com a definição da qualidade de gestos e finalizações, tal como o tônus específico para cada cena, mas sim, apenas a execução de ações e movimentos que provinham da própria fala/texto.


A relação com os elementos cênicos também se mostrou sem unidade, uma vez que nem todos os atores mantinham uma relação estreita com estes, por vezes apenas utilizavam o elemento porque era necessário o mesmo ser usado ali naquela construção cênica, não houve portanto, um estudo do movimento e do objeto na relação com a cena e o texto.


O tempo do espetáculo foi bastante longo, algumas cenas demoravam muito para se concluir, ou se concluíam e o público ainda era deixado no mesmo cômodo por muito mais tempo, o que dificultou a leitura e compreensão de algumas partes da peça, pois o estado de atenção de quem assistia se comprometia, a dilatação provocada com maestria, se perdia na duração muito prolongada.


Contudo, a peça propõe um frescor e uma vivacidade potentes, que a distingue das que estamos acostumados a ver nos palcos italianos. Todas as cenas foram criadas pelo grupo durante o processo, a partir de um ponto de vista bem particular de cada um. Muito do que existiu na encenação surgiu de recortes da vida dos atores e isso contribuiu para uma total propriedade do que estavam contando ao seu público.


por Dani Greco




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