Entre "twisties" e raquetes de tênis: alta performance e saúde mental


"O mundo esportivo não é para os fracos". Toda vez que escutamos essa afirmação somos levados diretamente a imaginar que o esporte não é para qualquer um, tomamos como verdade que para ser um atleta, os limites e as barreiras devem se tornar inexistentes. Mas a questão que vimos nos útimos dias nos Jogos Olímpicos, soa um pouco diferente para alguma parcela da população, digo "alguma parcela", pois muitos continuam achando que quem decide ser atleta não pode nunca perder o controle de si mesmo. Isso é mesmo alta performance?


A alta performance vem sendo cada vez mais exigida não somente de atletas, mas de todos que trabalham e querem ter um boa produtividade. Porém, até onde vai essa alta performance? Quais os limites imperam?


Dois atletas altamente capacitados: Simone Biles, atleta da ginástica artística, tem 25 medalhas em campeonatos mundiais, sendo 19 de ouro, é a ginasta mais condecorada na história do seu país em mundiais; Novak Djokovic, tenista e o atual número 1 do mundo, faturou mais de US$100 milhões em premiação por performance em quadra, é um dos melhores tenistas da história. Ambos apresentaram falhas no sistema nos Jogos Olímpicos de Tokyo, o que para muitos, foi um absurdo, seria quase um motivo de demissão.


"Twisties" explica a desistência de Simone Biles de várias competições dos Jogos, o fenômeno que também pode afetar os jogadores de golfe ("yips") se determina pela desconexão e perda de referência no ar (espacial), levando o corpo a uma desorientação, ou seja, o corpo do atleta não responde mais a ele mesmo.


Como se fosse um bloqueio mental, o cérebro não consegue dar comandos claros ao corpo, e assim há uma grande chance do atleta sofrer algum tipo de acidente grave durante a sua prática. Foi isso que fez Biles se retirar de muitas competições:


"Temos de proteger as nossas mentes e os nossos corpos,

não apenas fazer aquilo que o mundo quer que nós façamos".

(Simone Biles)


Ao mesmo tempo, Djokovic, quebra em fúria sua raquete, perdendo o bronze e desistindo da disputa nas duplas mistas. O mais engraçado é que ele havia dito um dia antes que os atletas precisavam aprender a lidar com a pressão - se referindo a Biles. Djokovic ao se dar conta que não alcançaria a largada do adversário próximo a rede, arremessou a raquete na arquibancada e num segundo momento, quebrou a raquete contra a rede após ter dado uma bola fora.


"Dei tudo o que poderia. O que eu tinha no meu tanque, que não era muito, deixei na quadra. Lamento não ter conquistado uma medalha para o meu país. Perdi oportunidades no simples e nas duplas mistas.

Não entreguei ontem e hoje o meu nível de tênis, também por exaustão mental e física",

(Djokovick após a derrota)



Te pergunto agora: eles foram fracos na sua opinião?


De verdade, eu vou te cutucar! Se a sua resposta foi sim, reveja seus conceitos e sua rotina de trabalho, pois o próximo pode ser você. Não sendo uma espécie de advogada da saúde mental, mas trabalhando com artistas e colaboradores de empresas através de processos de corpo-mente para a elaboração de uma performance de excelência, aprendi a escutar e entender os limites de cada ser humano, inclusive o meu.


Não sou nenhuma guru do corpo-mente (estou longe disso), precisamos sim ter uma alta performance para fazer fluir nossas tarefas e obter os melhores resultados possíveis e não imaginados, porém quero alertar que precisamos de autocuidado, autoconhecimento, amor próprio, escuta, para saber até onde podemos quebrar nossos limites.


Dizer não, não precisa ser uma violêcia, dizer sim para você e para suas pausas mentais e corporais é entender que o processo precisa importar mais do que o resultado. E quando não entendemos esse tipo de reação, de Biles e Djokovic, é porque ainda focamos nossa vida apenas em metas e resultados, e não estamos vivendo de fato o momento presente em estado de flow.


Em outras palavras, o processo e o resultado precisam se tornar prazerosos e divertidos, para que se tornem excelentes. Nossa mente quando em fluxo/flow funciona como um catalisador, acelerando os processos, diminuindo a energia de ativação e aumentando a velocidade, porém, quando este catalisador entope, há uma drástica redução no desempenho e diversos outros problemas começam a afetar todo sistema, prejudicando a performance.


A mente entra em estafa, o corpo não mais responde aos comandos, as emoções ficam bagunçadas, você já se sentiu assim? Eu já! A nossa força/energia vital vai embora e começamos a não querer mais produzir, não querer mais ficar bem apresentáveis, não temos mais vislumbres de nossos sonhos e metas - bornout, depressão!


Parar precisa ser inevitável, escutar seu corpo e sua mente, seus limites, trabalhar no processo, no presente, no agora, não focando apenas em resultados, metas e prazos precisam ser sim estabelecidos e cumpridos, porém a forma de se chegar lá é que dá o sentido, é que deve configurar os padrões de alta performance.


Você que lidera uma equipe, que treina grupos, que é dono de seu negócio e tem pessoas trabalhando para você, como tem sido a produtividade de seu time? Você tem escutado seus colaboradores? Como está a saúde mental das pessoas que te rodeiam? Inclusive dentro de sua casa.


Respeitar o processo e o tempo do outro é ter empatia, é agir em comunidade, é estabelecer a coragem de dizer não apenas aos resultados e sim aos processos, e compreender que a alta performance só acontece quando corpo-mente estão equlibrados e sãos.


O que aconteceu esses dias com ambos atletas foi um alerta para a humanidade que insiste em achar que nós podemos viver sem limites, que o autoconhecimento e a consciência de nossas ações são contos de fada de uma sociedade que apenas deseja o "carpe diem".


Viver no agora em estado de flow é o que vai nos levar ao patamar acima, sem isso, estamos fadados a nos sentir fracassados por desisitir, melhor dizendo, por dizer sim para nós mesmos e não para o que o mundo nos impõe.


Nessa semana que se inicia reflita sobre seus processos e se perceba, para que ao final dela você chegue aos seus resultados ainda com alegria, pronto para curtir seu final de semana, e que não falte empatia.


Bom trabalho e uma alta performance para todos nós - em estado de flow!


Dani Greco

Preparadora Corporal

Mentora em Bem-estar e Alta Performance








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