LETTER 1: Memórias para O Habitante de Lá



Uma sonhadora. Uma garota ainda menina, uma criança em busca da compreensão de fatos, acontecimentos. Ela é cuidada por sua irmã mais velha, que arruma seus cabelos todos os dias antes de ir para a escola. Seu pai lê a Bíblia todas as manhãs, acorda o irmão que não consegue acordar na primeira tentativa enquanto sua velha casa feita de madeira e retalhos coloridos balança ao som do vento.


Gosta de arrumar a casa e colocar seu ursinho sujo preferido na janela todos os dias, para assim, quando retornar da escola, ele lhe dê as boas vindas. Dança ao som de um bom samba e ainda tem no coração que quer se tornar uma grande bailarina, mas os meninos da casa descontentes com esse fato azucrinam sua vida todos os dias, levam-na para brincar na rua.


A rua é a casa, a casa é a rua, ela é rua. Sua casa muda-se de lugar, ela muda, sua família muda, a todo instante. São sempre arrancados de um lugar, expulsos, sendo obrigados a construir tudo novamente.


Em um dia claro como o sol, a enchente os expulsou dali novamente, para outro lugar, levando seus pertences, sua casa, suas memórias, esperanças. Resta dançar. Resta ser um com o outro. Resta se apoiar em amigos, irmãos, ser família, para conseguir sobreviver. E a menina que tinha sonhos em ser dançarina, teve seu sonho realizado, levando a família a estar com ela, seus irmãos, amigos. Através da dança superaram, sobreviveram, se uniram, fez-se sol novamente, fez-se casa, fez-se riso. Deus abençoou.


A velha casa de retalhos coloridos era o seu abrigo, sua melhor amiga, seu descanso, sua dança, sua respiração. E aí ela percebeu que sempre foi a casa, que todos sempre foram casa, mesmo na rua, todos traziam consigo uma memória, um pedaço de vida, uma cor. Eles eram arquitetura, eram corposrua.




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