LETTER 2: Memórias para O Habitante de Lá


A menina surge do estar na rua, viver a rua, partilhar, compartilhar, estar. Quando eu saí de minha casa em um bairro de classe média e fui dar aulas em uma comunidade próxima de minha casa. Lá encontrei um território e no início me sinto e sou vista como estrangeira. Fui pela dança, pelas pessoas, para compartilhar.


Eu já uma moça, por vezes vista como indefesa, começo a viver aquele território. Despeço-me de quase tudo para estar ali, caminhar junto e me relacionar com o outro. Fui vivendo, compartilhando, chegaram outros, da mesma idade, alguns um pouco mais novos, decidimos dançar. Decidimos construir juntos com aquele lugar.


A comunidade, ameaçada de sair dali pelas obras do metrô (hoje isso se concretizou), as chuvas que atormentavam suas casas dia e noite e o medo de ter que ser expulso de um lugar que se habita há tanto tempo, a dança então tomou esse lugar.


Surge então a menina, a figura de suas alunas ali, a figura das crianças que me rodeavam todos os dias, com seus rostos, suas histórias, memórias, casas, famílias, crenças. Surge o construir uma casa, nosso cenário, nossa casa, junto a um marceneiro da comunidade. Madeiras, pregos, rodas de rolimã e 3 grandes estruturas/paredes surgiam, com janelas e forradas de retalhos coloridos e lycra encontrados na rua.


A dança surge com uma casa. Casa corpo. Corpo casa. O corpo que convive ali há 3 anos. Fomos para a rua mais uma vez, agora contando uma história de pessoas, de conhecidos, de amigos. A dança sempre esteve na rua. O corpo sempre esteve na rua. Agora ele conta sobre outros corpos, com uma casa móvel, feita pelas mãos da menina.


A menina e a casa estiveram em muitos lugares fora dali, daquele mundo. Habitou outras casas, mas a rua e os pés no chão, sujos e molhados pela chuva continuavam aonde a casa ía...


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