LETTER 3: estadosDEpassagem



Um turista sai de sua casa para se aventurar em outras culturas e em outras casas, levando consigo seus pertencesses, tudo aquilo que irá necessitar em sua estadia, em sua passagem. Surpreendi-me sendo essa turista há por volta de 15 anos, foi quando eu saí de minha parentela, visitei outros estados e cidades, conheci pessoas, lugares, fui atravessada por outras culturas. E foi no passado em minhas andanças por Salvador e Rio de Janeiro que reconheci essa turista se tornando casarua.


A mala atravessando céus, atravessando ruas, meus pertences dentro dela sendo afetados pelo balanço de calçadas tortas e por quilômetros de andança até chegar a uma suposta casa. Suposta, pois estive em muitos hotéis, hostels, casas de diferentes amigos, onde conheci muita diversidade de comportamentos e hábitos. Ao então aterrissar nessas casas fazia delas a minha.


Apropriei-me de todos os territórios por quais passei e fui percebendo que aos poucos não se tratava mais de uma turista, mas de uma errante, que sempre estava entre culturas, sendo permeada por casas.


Casas são memórias, ativadas por ações motoras, ações que possuem fatos afetivos, de laços, de transformação. Memórias são casas que se atualizam constantemente a partir do momento que lugares e pessoas te atravessam.


A rua é um lugar insalubre. Mas ela tem memórias. As pessoas que por ela passam trocam sentidos, trocam experiências, levam consigo para rua as suas memórias, suas casas. E nesse momento minha arte se confunde com minha subjetividade.


Fiz faculdade de Turismo, hoje faço Comunicação das Artes do Corpo.

Fui turista, mas hoje sou viajante errante que carrega sua casamemória por esses lugares.


A rua, lugar de apropriação. Ocupo. Utilizo. Troco. Ela hoje tem sido minha casa também. Aproprio-me de suas falas, de seus gestos, de suas qualidades de mobilidade, de seus muros, grades, espaços zero. Faço memória ali, levo memória comigo. Faço meu privado público e do público meu privado. Desafio então conceitos, pré-conceitos.


Como uma jovem pode atuar, conviver, viver na rua cotidianamente não sendo uma moradora de rua? O público não compreende ainda que o público é privado e que o privado também é público, que a casa é privada e pública.


Mas e se a rua não for casa e a casa não for rua?


E se meu corpo não for rua e casa ao mesmo tempo?

Qual seria o sentido de se falar sobre arte, sobre dançar e performar a vida?


E hoje, por quais motivos ainda faço arte? Porque descobri que a arte é minha casa. Que minha casa é arte, minha casa é corpo, minha casa são as mestiçagens dos lugares que passei, pedaços de pessoa com quem convivi, por ruas que meus pés pisaram e foram errantes, percebendo que eu não sou, mas estou sendo, habitada pelas muitas casas que convivo dia após dia.


Essa sou eu, Dani Greco

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