O domínio do movimento como sistema evolutivo



Um corpo é afetado quando vê algo que nunca viu e viveu antes, isto provoca estranhamento, e como Freud diz: o que nos governa é o inconsciente e a consciência, assim, a todo o momento há uma indisponibilidade na compreensão de tais afetações, provocando uma aversão e repulsa, não sobre as questões apresentadas, mas sim sobre a estética, e é esta a incompreensão da arte contemporânea no século XXI.


A troca, porém, é constante, o observador, mesmo em sua repulsa, fica implicado na obra. O olhar não é neutro, ele vê e modifica, o corpo se modifica e ele vê, é uma coevolução. Sebeok (1991) diz que o contexto nunca é passivo e estático, ele existe, é o contexto-sensitivo.


“O espaço está no corpo e o corpo está no espaço, e estes se interpenetram. O dentro e fora, estão em continuidade em um lugar que, a cada instante é outro, eles são o palco das manifestações do inconsciente: partes esquecidas, lapsos de movimento, lesões involuntárias. É um corpo desejante, em que todo movimento expressa o desejo de “ir a algum lugar” (mesmo não intencionalmente), revelando, portanto, a falta-a-ser e o vir-a-ser do sujeito desejante.” (MIRANDA, 2008)[1]


O desejo é a condição de permanecer na sociedade, e com o aumento da velocidade dos corpos, não apenas da locomoção, mas dos meios de comunicação, surge este corpo bólido, ávido por informação e em busca de uma diferente identidade. Todos desejam ser únicos, porém, esta singularidade não é possível pelo fato de o modo de vida urbana ser imposto a uma massa.


Este entrar e sair, sair e entrar de pessoas, de informações, de mudanças de conceitos e políticas, de olhares, implica hoje, na quantidade de comunicação que pode ser acessada por um único corpo, seja este criança, jovem ou adulto. As informações e caminhos se cruzam, a todo o momento, um entra e sai de memórias, passados revisitados, são compartilhados através de inúmeros canais - auditivos, visuais, corporais, alguns causando estranheza, outros, identificação ou gratificação e todos estão permitidos sair e entrar - sós ou não - em espaços, tempos e ritmos, são relações e ações simultâneas, conectividade.


Conectividade é a capacidade que um sistema tem de estabelecer conexões heterogêneas, propondo uma comunicação, onde ambas as partes mudam de história mutuamente e no mesmo tempo-espaço. São relações parte a parte, caracterizando e construindo estruturas, são signos encadeados, conectados, que se utilizados constantemente, se tornam coesos e mais eficientes.


A conexão, o relacionamento entre artista-público, entre o corpo-ambiente, coloca a arte como parte do jogo da evolução, esta fomenta a coevolução de sistemas, onde o artista sempre necessita elaborar o ambiente e relações para usufruir de autonomia e permanência, já que trabalha com as possibilidades da realidade, com coisas que podem vir a ser. É sempre um processo não linear e evolutivo, propriedades mudando no tempo-espaço devido a informações trocadas com outros corpos.


Quando Rudolph Laban propõe em seus estudos de Coreologia o domínio do movimento, trata de relações conectivas do corpoambiente, propondo integralidade, funcionalidade e extrema organização. Defendo, portanto, a hipótese levantada por Jorge A. Vieira: “A eficiência do movimento e do corpo em sua organização e em sua relação com outros corpos e ambientes geram estética.”


O domínio do movimento e de suas conexões estabelecidas propõe uma nova espacialidade e novas conexões a cada instante, como em um sistema evolutivo. São estados subjetivos do corpo que interagem com o objetivo, com o real. São estados corporais que a todo o momento são transmutados pela realidade vivida, pelos ambientes ocupados, por relações criadas. São corpos plurais criando um corpo singular, que se torna parte do todo, que existe, e que se insere nesta aquarela de corposambientes de alta complexidade.


[1] MIRANDA, Regina. Corpo-Espaço. Aspectos de uma Geofilosofia do Corpo em Movimento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

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