O Simbolismo do Corpo na Bíblia (resenha)



Por conta das contaminações sofridas ao longo da história pela civilização grega, a bíblia judaica tem sido interpretada na cultura ocidental de maneira equivocada. Equívocos, porque existe uma simplificação dos escritos bíblicos, de modo que, poucos são aqueles que se dedicam a estudar seus contextos. Contudo, muitos são os devotos deste livro que se alimentam e multiplicam ensinamentos obtidos através de uma leitura superficial.


Todo estudo feito para uma maior compreensão do bíblia tem um grande obstáculo para chegar às massas. A tradução bíblica mais conhecida e distribuída vem pelo viés da interpretação grega. E a sua leitura é praticada, na maioria das vezes, por aqueles que a enxergam como uma verdade absoluta, que só pode ser compreendida pela fé. A fé por sua vez é tratada como incompatível com a ciência, já que está última busca explicar e entender a realidade, logo a fé que é compreendida por aquilo que não se vê, não poderia ser explicada pela ciência.


E é nesse ambiente de conflito que o corpo tem sido massacrado ao longo da história. A tradição grega propõe o corpo como um aprisionador do ‘eu’, um contender onde a essência do ser humano se aloca. Essa lógica vem, principalmente, por conta da filosofia platônica. Já a cultura judaica não compartilha, em hipótese alguma, desse entendimento de corpo e inevitavelmente dessa ideia de vida. Por fatores históricos as ideologias se cruzaram e necessitavam conviver.


Contudo, é clara a impossibilidade de uma tradução cultural entre ambas. Já que suas singularidades e diversidades vêm dos hábitos, e conseqüentemente da língua. A língua por si só já carrega o modo de ser de quem a falou/fala. Como traduzir uma crença judaica em palavras gregas? Nessa língua aspecto forte cultural de um povo, sempre carregada de seus princípios.


O termo Nefesh é exemplo claro, e talvez o mais importante dessa impossibilidade da tradução em culturas tão distintas. A tradução grega usou a palavra Nefesh como sinônimo de alma. Contudo, no hebraico antigo estava relacionada à garganta. Garganta não apenas entendida como “órgão da garganta visível, mas também a garganta audível, que chama, reclama ou grita, e a garganta ávida, insaciável, faminta e sedenta, devoradora ou ansiosa pelo ar.


Em resumo: tudo o que entra e tudo o que sai da pessoa humana (...)” (SCHORER e STAUBLI,2003). E é através dessa corporeidade da Nefesh que é possível conceber a relação do homem com o ambiente, desse “homem inteiro” que vive e se encontra no mundo onde contamina e é contaminado. Necessidade essa representada por essa ‘garganta’ intermediária dessa relação. O corpo sendo pensado a partir da sua materialidade e não apesar dela. O antigo oriente não estava orientado por uma concepção dualista entre corpo e alma. Razão, emoção, espiritualidade, órgãos são faces de um mesmo ser humano.


Em uma das narrações da criação a proposta do homem como materialidade do corpo se dá na relação entre Adam’ e Adamah’. Da Adamah’ foi moldado Adam’. Um Deus que com uma ação corporal, a de moldar com as mãos, cria o homem a sua imagem e semelhança. O corpo fortemente relacionado com a terra. A terra como o “princípio e o fim” do ser humano. Deus faz do homem terra distinta e a morte é quando volta à indistinção.


A volta a ser terra indistinta é onde os humanos se igualam a todas as criaturas vivas. A morte é o destino comum de tudo aquilo que vive. O pecado é o que trouxe essa situação de decadência ao homem representado por Adão, mas que se atualiza em cada ser humano de geração em geração. E Cristo é a possibilidade de redenção da humanidade, como se fosse um segundo Adão, mas que, perfeito se mantém afastado do pecado dentro das mesmas condições de humano.


A anatomia do corpo é símbolo e acesso ao ser humano e a sua relação com Deus. O Simbolismo do corpo na bíblia trata com minúcia as partes do corpo e o que elas são e representam do ser humano em Deus e de Deus no ser humano. Não um homem compartimentado e dividido. Mas, um ser indistinto que pode ser visto por perspectivas diferentes, mas que não modificam o fato de ser TODO.


Entender o ser humano como corpo e não como possuidor de um corpo impede que abusos e violências sejam legitimados na carne. Como é uma afirmação bíblica que “o corpo é templo do Espírito Santo”. Não compreendido como corpo contender, mas como corpo/homem, e é nesse ser completo e indistinto que o Espírito Santo habita. E nada pode permitir a depredação física, espiritual ou psicológica desse ser corporal que possui Deus nele sem hierarquia desses espaços, entre as veias, neurônios, emoções.


E é nesse mesmo entendimento que a igreja é vista como o corpo de Cristo. Corpo esse que precisa fazer diferença na sociedade, com compromisso entre os seus membros. A partir dessa atuação é possível uma comparação mais justa com Jesus. A narração da vida de Jesus entre os humanos nos conta que ele agiu em favor da humanidade com milagres no corpo. Como curas, multiplicação de alimentos, contribuições para cessar necessidades físicas que constituem o ser humano. A igreja como corpo de Cristo precisa estar ligada a suprir essas necessidades. Como fica explicito no texto abaixo:


Mateus 25:34-40

34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

35 porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes;

36 estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me.

37 Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?

38 Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos?

39 Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?

40 E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.


O reflexo de Deus está no próximo e o cuidado com o próximo é no que se baseia a ideologia bíblica. Cuidado esse que se dá no corpo.


A bíblia contextualiza o corpo no ambiente, assim como as ações dele no mesmo. Como, por exemplo, a ideia de doença como consequência do pecado. Não que a enfermidade seja um castigo de Deus, mas uma ação no mundo produz um estado no corpo, e a ação do corpo produz um tipo de mundo. E a fé está na possibilidade de intervenção divina na cura ou no afastamento desse mal. Essa proposta está diretamente ligada ao conceito de corpoambiente proposto pela Teoria Corpomídia (KATZ e GREINER):


“As relações entre o corpo e o ambiente se dão por processos co- evolutivos que produzem uma rede de pré-disposições perceptuais, motoras, de aprendizado e emocionais. Embora corpo e ambiente estejam envolvidos em fluxos permanentes de informação, há uma taxa de preservação que garante a unidade e a sobrevivência dos organismos e de cada ser vivo em meio à transformação constante que caracteriza os sistemas vivos. Mas o que importa ressaltar é a implicação do corpo no ambiente, que cancela a possiblidade de entendimento do mundo como um objeto aguardando um observador. Capturadas pelo nosso processo perceptivo, que as reconstrói com as perdas habituais a qualquer processo de transmissão, tais informações passam a fazer parte do corpo de uma maneira bastante singular: são transformadas em corpo.” (KATZ e GREINER, 2005, p.130)


Pressupondo o corpo como um processo contínuo e ininterrupto de troca com o ambiente, toda a ação de um corpo já está contaminada pelo ambiente, e a situação do ambiente já está contaminada pelo corpo. Uma má ação é um mal estado no ambiente e no corpo.


No decorrer dos escritos uma série de metáforas são feitas a partir do corpo para compreensão das relações no mundo e do mundo com Deus. Relações essas que se dão como corpo, porque são corpo. E, concluo, com mais uma ponte com a Teoria Corpomídia (KATZ e GREINER):


“O corpo é uma mídia, um processo constante, permanente e transitório,

de acomodamento dessas trocas inestancáveis com o ambiente onde vive.

Mudar os nossos relacionamentos com os outros e com o mundo

é sempre um processo encarnado.”

(KATZ, 2004, p.4).



Bibliografia

KATZ e GREINER, Helena e Christine. O corpo – pistas para estudos indisciplinares – Por uma Teoria Corpomídia. São Paulo – SP. Editora Annablume.

KATZ, Helena. Corpomídia: instrumento para caminhar na zona de fronteira. São Paulo –SP.

SCHROER e STAUBLI, Silvia e Thomas. Simbolismo do Corpo na Bíblia. São Paulo – SP. Editora Paulinas.

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