Sobre "As Metamorfoses do Corpo" de José Gil



O corpo detém nele múltiplos significados, discursos, mas que corpo é este? Quais os signos que o compreendem, quais suas formações de poder? A partir de tópicos como estes, Gil se propõe a examinar as transformações impostas ao corpo pela instauração desses poderes, dos regimes de signos que este está sujeito. Que aconteceu ao corpo e sua vida?


Lévi Strauss diz que: “no seu esforço em compreender o mundo, o homem dispõe sempre de um excedente de significação (que ele reparte entre as coisas, segundo as leis do pensamento simbólico, que pertencem ao âmbito de estudo de etnólogos e linguistas). Esta distribuição de uma ração suplementar, é absolutamente necessária para que, no total, o significante disponível e o significante referenciável permaneçam entre eles na relação de complementaridade que é a própria condição do exercício do pensamento simbólico.”


Porém, entre o significante e o significado existem funções semânticas que não correspondem precisos significados, existindo uma zona de indeterminação, dois mundos, zonas de desordem semântica como significantes flutuantes, explicando assim, segundo Strauss, a noção de mana: o tudo e o nada, que suporta qualquer conteúdo simbólico, sendo este elevado a zero, como no xamanismo, na morte, na doença, todo domínio que escapa aos códigos, seria este uma energia/força, da ordem do pensamento, é uma energia e espaço dos códigos, a passagem de um estado ao outro.


O significante flutuante, portanto, não funciona apenas como elemento de estrutura semântica, e também não se opõe apenas à ausência de significação, ele fixa as noções de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos.


O xamane, seria então, um “medicine-man”, a figura que transporta o grupo de um estado ao outro, ele promove o complexo xamanístico, que envolvem ele próprio, o doente e o público, que colabora ativamente nos processos de cura, através de transes propostos pelo xamane, ele traduz um sistema simbólico em outro. O pensamento normal sempre sofre um déficit de significado e o dito patológico dispõe de superabundância de significantes.


A sessão xamã fornece a ocasião de uma coincidência entre os significantes e significados, o xamane oferece ao doente uma linguagem, em que se podem de imediato exprimir os estados informulados e de outro modo informuláveis, e é a passagem a esta expressão verbal que provoca o desbloqueamento do processo fisiológico.


O doente vive essa linguagem em seu corpo, este constitui suporte das permutações e correspondências simbólicas entre os diferentes códigos de presença, o permutador desses códigos é o corpo. É ele, e suas energias, que o significante flutuante designa. Assim, no transe, ocorre a descodificação de um corpo usado, doente, o desbloqueamento de sentidos, e o renascer de um corpo novo, são, curado.


A viagem fora de qualquer código significa a transposição da fronteira da cultura, e o corpo puro, incodificado, possuidor de energias livres deve regressar à natureza para desempenhar o papel de permutador de códigos. Nesse sentido, o homem está no centro do universo, as forças motrizes deste estão ligadas aos indivíduos, seria impossível dizer do meio físico ambiente, exterior do homem, ele tem laços tão íntimos com o universo que se torna comparável ao centro de um campo magnético, são forças em movimento.


Maurice Leenhardt fala de ‘identidade de substância’, entre corpo humano e corpo vegetal, de correspondência de estruturas: “O corpo humano é feito desta substância que verdeja no jade, forma folhagem, enche de seiva tudo o que vive, resplandece nos rebentos e nas energias sempre renovadas. E como o corpo fica completamente cheio desta vibração do mundo, não se distingue dele”. Mas as operações que acontecem nesse corpo ainda são desconhecidas.


Um fato simples para esse entendimento é o momo. Ele, em sua fala com o corpo, exerce fascinação sobre o público, pois desarticula o corpo significante de linguagem, provocando uma metalinguagem, sendo um suporte de sentidos. Vai do corpo ao corpo, do seu corpo-significante ao corpo-significado do público, de um corpo abstrato à um corpo concreto. Ele produz um corpo suporte da gênese e da comunicação de sentido, ele articula-se espontaneamente.


Mas o que é espontaneidade? É a manifestação da energia num corpo não codificado.

O corpo não fala, faz falar, sendo uma infralíngua, uma linguagem virtual.


O corpo está em comunicação com o mundo enquanto infralíngua, seria, então de acordo, trata-lo com gramática, falar-se-ia de gestemas, como falamos de fonemas, na linguagem verbal.


Mas pode-se conceber um sistema de signos próprios do corpo?


Precisaríamos cortar o contínuo dinâmico em unidades objetivas e necessárias e apreender unidades sintagmáticas pelas combinatórias de unidades constitutivas, colocar homologicamente o plano gestual e linguístico. Isso é possível? Podemos reduzir o corpo a uma língua?


A noção de volume dos gestos e de intersecção destes volumes, definem os gestemas, princípios de matematização da géstica. K. L. Pike propôs uma teoria de movimentos do corpo, e chegou à conclusão de que “é impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro; de dizer exatamente onde um segmento acaba e onde começa o seguinte; a primeira razão desta indeterminação é que os movimentos do corpo, duma parte qualquer do corpo, deslizam ou correm de um para o outro, de tal modo que é muitas vezes impossível cortar o continuum...; quando estão em causa várias partes do corpo, há cruzamentos de segmentos”.


Em suma, não existe unidade gestual facilmente isolável, a ponto de parecer mais difícil fundar uma géstica do que uma linguística.


O espaço da intersecção de volumes define de fato a própria possibilidade de metáfora, e, através dela, a possibilidade de funcionamento simbólico, nesse caso, falar-se-ia de infralíngua ao invés de géstica. Não há como isolar unidades gestuais, as sequências cruzam-se sempre, significantes de múltiplos significados, assim o gesto tem vários sentidos, é significante e significado.


Esta plasticidade do corpo, a sua capacidade, estabelecida sobre suas próprias articulações, para se articular à própria articulação da linguagem, faz dele essa infralíngua, ela é resultado da incorporação de uma linguagem verbal, da sua inscrição-sedimentação no corpo e nos seus órgãos, não existe antes da linguagem verbal se constituir.


Sendo deste modo post-pré-verbal é genuinamente pré ou não-verbal, pois a incorporação da linguagem implica a perda real das propriedades verbais e a emergência na fala, de conteúdos semânticos confusos, contraditórios, que marcam a presença do corpo nas operações linguísticas. É enquanto não-verbal que se constituiu como pós-verbal que a infralíngua oferece ao pensamento e à linguagem mais que uma matriz, um procedimento geral para pensar o mundo, para que o mundo caótico, sensível, variável, adquira ordem e sentido.

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